Um blogue sobre comunicação inteligente

25
Ago 13

Factos são factos, mas o que interessa na actualidade é a opinião. O comentário está, aliás, a pôr--se a jeito para uma tese de doutoramento que seja capaz de explicar as vantagens e desvantagens de ter políticos e jornalistas a comentar tudo o que mexe. Os especialistas em saúde, transportes, justiça, etc., aparecem episodicamente para fazer o papel da cereja em cima do bolo.

Opinar passou a ser o mais generalizado dos direitos democráticos, mas a opinião perdeu valor, por ser mais comum e, acima de tudo, por ser pouco ou nada especializada. Bonitos e feios, com o dom da palavra e aparvalhados, sábios e menos sábios, todos fazem parte da ditadura do comentário.

O comentário fez caminho e tornou o facto quase dispensável. Se da comunicação social passarmos para as caixinhas de comentários na Internet, então, na maior parte dos casos, passamos directamente para a pornografia. Por aqui, só com uma peneira conseguimos encontrar provas de inteligência. Ela existe e revela-se com orgulho entre os que assumem a paternidade dos seus comentários. A maioria dos nickname nem consegue opinar, não lhes interessa nenhum debate de ideias, basta-lhes o campeonato dos insultos.

Adiante. É na televisão que se joga a força desta ditadura e aí o professor Marcelo é o mais brilhante comentador político. É uma mistura de Cristiano com Messi e, por isso, é o mais bem pago. É justo. Cada um deve ser pago pelo que vale e os dribles de Marcelo são pura magia. Na televisão Marcelo Rebelo de Sousa é imbatível. Goleia os adversários das TVs generalistas e transforma em amadores os competidores da TV Cabo. Estamos a falar apenas das grandes competições, onde só jogam os políticos, porque em matéria de comentários há ainda uma segunda divisão, onde jogam comentadores profissionais e um ou dois jornalistas, e uma terceira divisão, onde jogam camionetas de jornalistas (eu incluído).

No caso dos políticos, principalmente os que comentam aos fins-de-semana nas televisões generalistas, os seus comentários passam muitas vezes a factos para serem comentados pelos outros comentadores. Já ninguém sabe o que factualmente aconteceu, sabemos todos o que é suposto ter acontecido de acordo com a opinião dos comentadores.

 

"A Santa Opinião" - Paulo Baldaia, In Diário de Notícias de 25 Agosto

publicado por João Távora às 12:58

06
Ago 13


A verdadeira estrutura da Internet – é sobre pessoas a conversar.”
Jeff Jarvis

 

Confesso que me fascina o tema da privacidade no contexto ao advento das redes sociais que vivemos por estes dias. No que ao assunto refere, numa sociedade securitária como a ocidental, cujos refinados mecanismos de controlo social atingiram o auge há algum tempo, são de ter em conta sensibilidades diferentes, acentuadas mais por questões filosóficas do que outras mal sustentadas.
Democratizado o acesso às múltiplas plataformas de auto-edição online, dos blogues à popular rede social Facebook, passando pela edição, arquivo e partilha de fotografia (Flikr ou Instagram) ou audiovisual (Youtube ou Vimeo), concedo que o mesmo não aconteceu com o bom senso do qual como se sabe cada um tem a sua noção e medida. Um problema de facto: para muitos utilizadores, o desafio acaba por estar em saber o que não se deve publicar (no sentido de por em comum) cuja norma depende do bom gosto de cada qual - que é coisa que aliás não se discute. Aqui chegados, é inegável que a revolução tecnológica a que hoje assistimos entregou ao cidadão comum ferramentas de comunicação com o potencial de competir ombro a ombro com qualquer produtora de televisão clássica. Assim como hoje em dia, um blogger qualquer, com arte e engenho pode facilmente constituir uma plateia de leitores mais numeroso do que aqueles que o seguiriam num jornal de referência.
Os milhões de gigabytes de conteúdos, em texto som ou imagem, que a cada hora são publicados por gente comum na rede mundial de informação digital, a simples geolocalização automática que as engenhocas portáteis proporcionam, transformaram o conceito de comunicação e definitivamente a própria Internet. Isso assusta muita gente que dificilmente entende a lógica deste enorme turbilhão de informação e criatividade humana em que vivemos… donde os melhores inevitavelmente sobressairão, livres de intermediações duvidosas. O desconhecimento promove mitos... e o medo é mau conselheiro. Citando o jornalista Jeff Jarvis em entrevista ao jornal Público em novembro do ano passado, "Até 1890 não havia discussão a sério sobre as questões legais de privacidade nos Estados Unidos e aconteceu por causa da invenção da câmara Kodak – as pessoas tinham medo que se pudesse tirar uma fotografia e aparecerem."
Tenho a impressão que hoje acabamos todos por ceder um pouco na privacidade para usufruirmos de mais liberdade. Sou dos que assina de nome completo as opiniões na net, e assume uma exposição bastante transparente nas redes sociais, onde não me coíbo de partilhar muita informação pessoal e profissional. E confesso que pouco me importo que o Google ou o eBay  “conheçam” os meus gostos ou o meu histórico de consumo.
Como refere Jeff Jarvis “Viver em público não mostra apenas que temos pouco a esconder; mostra que temos pouco a temer”, ademais, “quanto mais pública uma sociedade for, mais segura será.”
De resto um ribeiro continuará algures a correr indiferente, com a água borbulhando enremoinhada entre as pedras duma colina. O silêncio encontra-se sempre à distância de um interruptor, a serenidade dentro das paredes da catedral e um bom livro espera por nós na prateleira tal como a guitarra pendurada na parede.
Finalmente voltemos à questão da privacidade "perdida": não sei o que há quarenta anos passaria pela cabeça dos nossos avós, quando permitiam o seu nome e morada completa publicados em letra de forma no livro de maior tiragem e mais consultado à época: a Lista Telefónica. Eu, não me atrevo a tanto. 

publicado por João Távora às 22:16

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Editorial
Gostamos da palavra propaganda, termo velhinho que, simplificando, antigamente definia sem complexos o conjunto de técnicas para publicitar uma ideia. Com o tempo, o termo muito utilizado pelos políticos numa conturbada fase do Século XX resistiu mal ao desgaste pelo sentido que assim se lhe deturpou: como se, realçar as virtudes próprias ou dum objecto, não fosse ambição e atitude legítimas, praticada por qualquer ser humano psicologicamente equilibrado e socialmente integrado. Ler mais
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