Um blogue sobre comunicação inteligente

20
Jul 14

Ontem numa crónica publicada no jornal Expresso a ilustrar uma investigação jornalística sobre a alegada política de exclusão de links no Google “a pedido” no âmbito da questão recentemente levantada pelo Tribunal de Justiça da União Europeia do pretenso “direito ao esquecimento”, o seu autor, Miguel Cadete, além de outros equívocos levanta suspeitas sobre a transparência utilizada na indexação de conteúdos daquele motor de busca. Vale-nos como desconto a declaração de interesses que o jornalista evoca ao assumir má vontade com a Google, companhia a que imputa responsabilidades na crise que “fustiga a imprensa há décadas”, com as conhecidas consequências no esforço de adaptação que vem exigindo ao sector.

Como apaixonado desta profissão que tenho como das mais nobres, conforta-me saber que os jornais perscrutam e vigiam toda a sorte de poderes e particularmente uma grande empresa como a Google. Sensível às angústias enunciadas pelo cronista, não posso concordar de todo com as suas crenças e julgamentos, certamente motivados pelo medo, um sentimento o mais das vezes inspirado pelo desconhecimento. Nesse sentido, convém esclarecer que o facto de o motor de busca Google “não ter praticamente concorrência”, como refere Miguel Cadete, se deve ao seu complexo algoritmo, exclusivamente indexado à necessidade e proveito do utilizador e não a qualquer tipo de manipulação obscura. Tal implica que, por exemplo,  a sua independência face ao negócio da publicidade constitua um valor crucial e sagrado: os links patrocinados (AdWords), a tal publicidade que segundo o cronista significa “um dos maiores negócios do mundo” (!), aparecem graficamente distinguidos daqueles de indexação orgânica. Depois, agitar o papão duma hipotética utilização abusiva dos dados (interesses) que plataforma Gmail capta nos conteúdos das mensagens para exibição de publicidade “dedicada” (AdSense), parece-me uma falácia, já que a não intervenção humana, para lá de questões éticas, é a única garantia de rentabilização do sistema. Ou seja, o tratamento racional (humano) e sistemático da informação, utilizador a utilizador, requereria uma astronómica quantidade de meios. Não saberá por certo o autor da crónica que o navegador desenvolvido pela Google (Google Chrome) permite configurar o bloqueio de publicidade ou eliminar o registo do histórico de navegação, e que a georreferenciação do utilizador (um dado muito útil em determinadas pesquisas) é meramente opcional.

A maior ameaça ao jornalismo continua a ser o mau jornalismo (seja ele fruto de sectarismo, preconceito ou ignorância), e não deixam de se verificar diariamente lançamentos de novos e ambiciosos projectos de comunicação social que aproveitam as oportunidades concedidas pelas novas tecnologias. Os desafios que estes tempos da Internet colocam à imprensa e à comunicação social em geral, por mais ameaçadores que aparentem ser, têm que ser enfrentados com criatividade e pragmatismo. E quanto a uma regularização racional dos preços da publicidade online e offline, há certamente muito a mudar e reformar pelas partes interessadas, principalmente aquelas que se mantêm presas a arquétipos ultrapassados. Finalmente os motores de busca, como eficazes instrumentos de propagação de conteúdos digitais que são, deverão ser assumidos de uma vez por todas, não como uma ameaça aos jornais mas como uma oportunidade: o factor mais decisivo para uma relevante posição nas pesquisas é a qualidade do conteúdo e a interacção que o mesmo potencia com o leitor. Se eu fosse jornalista considerava tudo isto boas notícias. 

publicado por João Távora às 15:46

13
Jul 14

 

Não sou de intrigas, mas causa alguma estranheza o facto do Expresso quase dois meses após o lançamento do seu vespertino diário em rede lhe ter dedicado no sábado em publicidade nada menos que a capa e a página 2 integrais do caderno principal (a artilharia pesadíssima). Como referi pela altura da sua estreia, este ambicioso projecto, que na sua arquitectura rejeita todas as virtualidades duma publicação digital, e ao contrário pretende reproduzir o modelo de leitura oposto, o de uma revista em papel, tem tudo para não dar certo. Esta fórmula que se afirma “elitista” e nesse sentido rejeita todas as tendências actuais, concede-lhes a contra-gosto apenas os mínimos possíveis. Para mais, o acesso através de alguns dispositivos em miniatura, com o preenchimento com os códigos de acesso fornecidos no semanário, revela-se um verdadeiro castigo ou até uma impossibilidade. Mas o mais importante factor será o de que a disponibilidade para a utilização recreativa da internet não tem hora marcada e que o modelo de navegação “horizontal” ao estilo do papel coaduna-se pouco com os hábitos de navegação na internet. Perante este panorama somos levados a crer que o projecto do Expresso diário, que aparenta ter constituído um grande investimento em recursos tecnológicos, deverá ser revisto para sobreviver.  

publicado por João Távora às 19:42

26
Jun 14

 

Numa inédita resposta a um pedido de esclarecimento da Audiência Nacional espanhola, o Tribunal de Justiça da União Europeia decidiu que os cidadãos europeus têm o direito de exigir ao motor de busca Google que suprima indexações de determinadas “páginas” por forma a garantir o “direito ao esquecimento”, nos casos em que o interesse privado se sobreponha ao interesse público, ou seja sobre informações "desadequadas, irrelevantes ou já não relevantes". O caso vertente refere-se a um cidadão espanhol que exige ver uma notícia sobre uma sua antiga dívida à Segurança Social publicada no La Vanguardia eliminada das pesquisas no Google. Repare-se como o queixoso não pretende negar os factos, nem exige ao jornal rever, ou que se elimine o conteúdo publicado, apenas impedir o acesso à publicação via internet. Por ironia, contrariamente ao que é habitual, desta vez a culpa da má notícia não está a ser imputada ao mensageiro, mas à sua bicicleta. 

Segundo fonte anónima da Google, na sequência deste precedente surgiram inúmeros pedidos de gente que deseja o mesmo tratamento por parte do motor de busca, e que entre essas pessoas estão "um antigo político que está numa corrida eleitoral", "um homem condenado por posse de imagens com abusos sexuais a crianças" e "um médico que quer ver removidas as críticas negativas dos seus doentes".
Perante isto somos levados a concluir que os argumentos do Tribunal de Justiça da União Europeia denotam um profundo desprezo pela liberdade de expressão e de informação. Ora acontece que o tribunal afirma que “os desejos de um indivíduo sobrepõem-se aos interesses da sociedade em relação aos factos que rodeiam um incidente". Os interesses de uma sociedade estão neste caso espelhados numa plataforma tecnológica apuradíssima que, de forma eficiente e neutra, permite o acesso a todos os conteúdos publicados na Internet através de um algoritmo que equaciona a relevância do mesmo em face de uma pesquiza específica (palavras-chave). Ora acontece que manipular, por decisão judicial, estes princípios perverte e põe em causa todo o sistema.
Como consultores de comunicação, é comum deparamo-nos com clientes que pretendiam ver a sua marca ou nome nos motores de busca dissociados de determinada notícia ou comentário menos abonatório. A fórmula por nós aconselhada é a de promover um trabalho planificado de assessoria de comunicação que promova a publicação de notícias de sinal contrário, não só pela imprensa, mas nas mais adequadas plataformas de Internet. Trata-se de um processo de construção gradual mas, se construído com seriedade e com base em informação genuína, acaba por retirar protagonismo e relevância ao conteúdo “maligno”, afundando-o em termos da sua pesquisa para um posicionamento de total insignificância e relatividade face aos restantes.
De resto, como é bom de ver perante os factos profusamente noticiados, a consequência deste processo acabou por virar o feitiço contra o feiticeiro: o assunto que Mario Costeja González pretendia ver ocultado ao público, tornou-se um massivamente propagandeado em todo o mundo - quem não soubesse sabe agora que ele teve um dia problemas com uma antiga dívida à Segurança Social noticiada pelo jornal La Vanguardia.  Moral da história: só uma assessoria mediática profissional permite gerir de forma eficiente e criteriosa a reputação de uma marca ou de uma empresa e aliar o posicionamento adequado à notoriedade desejada. Enfim, hoje como ontem, a reputação e a notoriedade requerem bons mediadores. Estamos a falar de activos pessoais e institucionais  demasiado sérios para ficarem nas mãos de amadores. 

 

Fonte da notícia Público

Foto Daily Mail

publicado por João Távora às 20:07

20
Mai 14

Estas últimas semanas foram agitadas no universo da imprensa portuguesa que, como no resto do mundo desenvolvido evidencia uma tão prolongada quanto funesta inadaptação a um novo modelo de consumo de informação emergente da Internet. O anúncio do lançamento do projecto Observador, um jornal de linha editorial definida, integrando um corpo redactorial com nomes consagrados do jornalismo e da opinião como David Dinis, José Manuel Fernandes, Helena Matos, João Cândido da Silva, ou o historiador Rui Ramos, terá acelerado o processo de renovação no projecto digital do jornal Expresso que perante isso se antecipou não só com o lançamento de um inédito vespertino online, mas, last but not the least, ostentando grandes melhorias na navegabilidade, arrumação e adaptabilidade gráfica aos diferentes suportes electrónicos móveis. 
Assim, ao atrevimento do Observador, publicação que se assume como um projecto jornalístico online de conteúdos inteiramente abertos e interactivos com o leitor e as redes sociais, corresponde uma não menos audaciosa aposta do Expresso num modelo de sinal contrário, de acesso pago e num formato de leitura horizontal, reproduzindo uma experiência de leitura à maneira do papel. Munidos que estão, ambos os projectos, de um equipa editorial de grande qualidade, têm pela frente um difícil desafio de afirmação, se não perante os respectivos públicos, certamente pelos anunciantes e patrocinadores único garante da sua viabilidade a longo prazo. Nesse sentido custa-me a entender o modelo algo conservador assumido pelo Expresso, em confonto assumido com o incontornável poder disseminador das redes sociais e plataformas de auto-edição, e também pela assunção de um estranho formato de “vespertino” com horário de publicação à hora certa (às 18:00) claramente contranatura numa plataforma cujo potencial é a actualização contínua de conteúdos em tempo real. Ou seja, este modelo de negócio dá ideia da contrariedade que representa para o velho e institucional jornal Expresso o esforço de adaptação à era da democracia digital que afinal se suporta na agilidade dos meios e na interactividade com o leitor. No entanto estou em crer que é esse distintivo “aristocrático” que lhe vale um público certo, as elites regimentais, quadros médios e superiores do Estado, das grandes corporações e empresas que à volta dele gravitam: o jornal de Balsemão afirmou-se após o 25 de Abril como a bíblia do establishment da esquerda social-democrata e politicamente correcta cujo espaço afinal todos os outros generalistas lhe disputam. 
Sob essa perspectiva é que o Observador nos surge como uma verdadeira pedrada no charco, um autêntico atrevimento: mesmo munido da melhor tecnologia, reunida uma bem calibrada equipa, um projecto editorial criado de raiz para a Internet, financiamento transparente e linha política sem equívocos; mesmo exibindo tudo isso e bons conteúdos num desenho elegante e ergonómico, tendo em conta um público habituado a exigir qualidade à borla e um mercado publicitário desajustado, é de esperar para o projecto de José Manuel Fernandes um duro caminho de pedras. 

 

PS.

Muito inteligente a fórmula escolhida para a “newsletter” de O Observador: duas vezes por dia em texto normal, sem poluição visual, entra na caixa do correio como se tratasse de uma mensagem particular, aborda os principais temas publicados nas últimas horas numa linguagem informal e assinada pelo redactor de serviço.

 

Ilustração: daqui

publicado por João Távora às 21:22

16
Abr 14

 Ilustração Portuguesa 1906

 

A publicidade nos jornais online está de tal forma intrusiva e agressiva que estou em crer provoca o efeito contrário ao pretendido pelas marcas anunciantes, e acaba expulsando os leitores para outras leituras. Nada o justifica, tanto mais que vivemos mais de duzentos pacíficos anos em que os anúncios se exibiam sem saltar para a cara dos leitores. Além disso, com a tecnologia disponível aliada à imaginação, acredito serem hoje possíveis modelos de rentabilização bem mais eficazes.

 

publicado por João Távora às 11:37

07
Abr 14

 

Já por diversas vezes abordamos as virtudes e virtualidades das redes de media-social no âmbito da facilitada tarefa de auto-edição, seja em texto, imagem ou audiovisual, e a ameaça que essas plataformas vêm representando para os media tradicionais de quem acabam por ser concorrentes.

Um dos mais bem-sucedidos casos é sem dúvida o Youtube que, com enorme sucesso global, vem desviando público e receitas publicitárias às televisões, através de uma radical alteração de paradigma na produção e distribuição de conteúdos, que desta forma vem sendo democratizada de forma dramática.

Irónico é verificarmos como os media tradicionais, apesar de pressionados com a queda das receitas publicitárias de um modelo claramente em declínio, resistem aderir à web 2.0, agora que vivemos a web 3.0, ou “web semântica”, virada para a experiência de utilização e para os condicionalismos do meio (localização do utilizador, equipamento utilizado, design líquido, etc.).

Feita uma análise aos “players” de internet das principais operadoras de TV nacionais, para lá de não estarem devidamente adequados aos dispositivos móveis, é curioso verificar como persistem na tentação de segurar o visitante dentro dos seus pesados websites, talvez devido a alguma absurda política de branding, ou quem sabe por um inadequado modelo de exploração publicitária ou de cross selling do material neles disponibilizado numa coerência editorial própria.

Com esta estratégia de custos incalculáveis, a disseminação viral dos vídeos é reprimida, coisa que não parece fazer sentido, a partir do momento que é tão fácil reproduzir a fórmula do Youtube, em que cada “filme” é rentabilizado por um anúncio nele integrado, estando o mesmo munido de um sistema de análise estatística e de botões emissores de códigos para facilitação de partilha em diferentes contextos web externos, como blogs, sites, e toda a sorte de redes sociais. Mesmo aqueles sites como o da RTP que disponibilizam botões de partilha, exceptuando o caso do código para o Facebook, exigem a contextualização do conteúdo “dentro de portas” através de um URL.

Esta estranha política, que não sendo causada por limitações técnicas, só se explica por uma enorme dificuldade dos media tradicionais fazerem o "paradigm shift" (mudança do paradigma), fenómeno que afinal vem potenciar toda a pirataria feita pelos utilizadores das plataformas social media como o Youtube, que pelas razões já enumeradas permitem potenciar a viralidade desses conteúdos dando-lhes asas.

Certamente que o factor de custos mais pesado na indústria do audiovisual é a criação de conteúdos. Ou seja, os grandes grupos de comunicação desenvolvem e possuem a matéria-prima, para depois descurar a sua difusão, e por consequência na sua rentabilização. Fará sentido resistir assim teimosamente até à morte, ou será que ainda pretendem um dia destes reivindicar subsídios ao Estado?

 

 com Hugo Salvado

publicado por João Távora às 09:36

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Editorial
Gostamos da palavra propaganda, termo velhinho que, simplificando, antigamente definia sem complexos o conjunto de técnicas para publicitar uma ideia. Com o tempo, o termo muito utilizado pelos políticos numa conturbada fase do Século XX resistiu mal ao desgaste pelo sentido que assim se lhe deturpou: como se, realçar as virtudes próprias ou dum objecto, não fosse ambição e atitude legítimas, praticada por qualquer ser humano psicologicamente equilibrado e socialmente integrado. Ler mais
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